Carolina Maria de Jesus e a autorrepresentação literária da exclusão social na América Latina: olhares reversos aos de Eduardo Galeano e Octavio Paz

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  • Data de Criação 6 de março de 2020
  • Ultima Atualização 6 de março de 2020

Carolina Maria de Jesus e a autorrepresentação literária da exclusão social na América Latina: olhares reversos aos de Eduardo Galeano e Octavio Paz

O processo de formação das nações latino-americanas resulta do violento confronto entre os conquistadores europeus, os subjugados povos indígenas e os massivos contingentes de escravos africanos forçados ao degredo em terra estrangeira. Nesse contexto, o confronto e a ocupação do território deram origem a múltiplos movimentos de diáspora, de exclusão social e de rejeição mútua entre grupos étnicos em busca de sobrevivência e de identidade: povos autóctones buscando refúgio em territórios não ocupados pelos conquistadores europeus, grupos de escravos africanos protegendo-se mutuamente em comunidades quilombolas, europeus deserdados e mestiços à caça de oportunidades em regiões inóspitas.

No âmbito da literatura, esse complexo embate entre dominadores e dominados, entre ricos e pobres, entre cidadãos e seres reificados, entre os que comem e os que têm fome, assim como o decorrente processo de exclusão social coercitiva, manifestam-se simbolicamente nas páginas dos mais significativos escritores latino-americanos, de José de Alencar a Gabriel García Marquez, de Augusto Roa Bastos a Miguel ÁngelAsturias,entre inúmeros outros exemplos extremamente representativos.Coetâneos, o diplomata, poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (México, 1914-1998) e o jornalista, ensaísta e poeta Eduardo Hughes Galeano (Uruguai, 1940-) inscrevem-se entre os autores que, por intermédio de sua obra, constroem uma inovadora e expressiva imagem da América Latina, no tocante aos segmentos negligenciados da população. Nesse contexto, é fundamental registrar o surgimento de uma voz que emerge das próprias favelas para denunciar, como testemunho pessoal de fatos empíricos cotidianos, o fosso profundo que separa famintos e bem alimentados no conjunto do continente latino-americano: a memorialista e ficcionista brasileira Carolina Maria de Jesus (Brasil, 1915-1977). No conjunto da obra desses autores, observa-se o impacto da exclusão social no processo de construção das identidades nacionais. Nessa perspectiva, nas últimas décadas, a representação literária da exclusão social tornou-se um dos temas privilegiados dos estudos comparatistas, sobretudo pela vertente dos estudos culturais e da crítica social.

O presente trabalho centra-se no estudo comparativo da imagem literária da exclusão social, por intermédio da representação desse fenômeno, tal como se estampa nas páginas autorreferenciadas de Carolina de Jesus, que assume a (verdadeiramente autorizada) voz autoral de uma catadora de papel, mulher, negra, mãe, descendente de escravos no Brasil, chefe única de família, migrante sem opção, moradora em favela, ser humano privado de cidadania. Para tanto, toma-se como ponto de partida a visão externa do fenômeno da exclusão que se observa nas páginas de dois autores de ascendência europeia, de traços caucasianos, de extração e posição social privilegiada, entre outras marcas de pertencimento sociocultural: Octavio Paz e Eduardo Galeano. Tal leitura comparatista justifica-se pelo fato de a representação da exclusão social ser um fenômeno produtor e mediador de sentidos no conjunto da sociedade, sobretudo por meio da literatura e de outras manifestações artísticas. Para a condução de tal reflexão, este trabalho assim se estrutura: na primeira parte traça-se um breve panorama da representação da exclusão social na literatura; na segunda, apresentam-se elementos de reflexão sobre a exclusão social na obra de Octavio Paz, e, com base em conceitos propostos pelo prêmio Nobel mexicano, procede-se a uma leitura contrastiva da imagem da exclusão em um célebre poema do uruguaio Eduardo Galeano; na terceira parte, por fim, passa-se ao reverso da leitura contrastiva e à analise da expressiva voz autoral da brasileira Carolina Maria de Jesus, em suas páginas autorreferenciadas e suas imagens especulares que se constroem ao arrepio do olhar exterior e exotizante de Galeano e Paz.

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