Comunidades “no sentido social da evangelização”: CEBs, camponeses e quilombolas na Amazônia Oriental Brasileira

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  • Data de Criação 6 de março de 2020
  • Ultima Atualização 6 de março de 2020

Comunidades "no sentido social da evangelização": CEBs, camponeses e quilombolas na Amazônia Oriental Brasileira

Retomo aqui um tema já bastante estudado, cuja validade pode situar-se no fato de fazê-lo a partir de um espaço —a Amazônia —onde esse tipo de trabalho não tem sido tão privilegiado, embora a presença de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) seja muito conspícua em várias áreas dessa região, desde a segunda metade do século XX, representando, na época, tal como no Nordeste, um importante elemento de resistência à ditadura militar brasileira, embora, evidentemente, suas funções não se esgotassem só nisso1. Ademais, o fato de retomar agora um tema que aparentemente não mais "está na moda" me permite outro tipo de reflexão, talvez menos apaixonada e mais crítica, sobre a relevante atuação da Igreja Católica no Brasil, do ponto de vista não só religioso, mas de uma grande abrangência social e política2.

Gostaria de começar com um rápido esclarecimento sobre o título escolhido, esclarecimento que considero importante e que será mais adequadamente desenvolvido na continuação deste texto. A expressão "comunidade no sentido social da evangelização" é retirada da fala de um camponês e quilombola da comunidade de Santo Antônio, no município de Concórdia do Pará, que resultou de desmembramento recente do antigo município de Bujarú, na microrregião de Tomé Açu (mesorregião do Nordeste Paraense). A meu ver, ela expressa muito bem o resultado da atuação de agentes de pastoral da Igreja Católica que trabalham na implantação de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O artigo trata de duas comunidades distintas da Amazônia Oriental brasileira: a comunidade de Santo Antônio, numa área de colonização mais antiga e tradicional, e a comunidade de Brasil Novo, na Transamazônica —que, como é bem conhecido, resultou de projeto desenvolvimentista implantado na época da ditadura militar. A área já estava, em parte, sujeita à colonização mais tradicional, mas o projeto representou mudança muito grande, a ponto de transformar de forma expressiva o modo de vida das populações locais, sobretudo pela chegada de um grande número de novos habitantes, procedentes de várias regiões brasileiras, principalmente do Sul e do Nordeste. Utilizo a expressão para as duas comunidades e, por isso, coloco este título: "Comunidades 'no sentido social da evangelização'", referindo-me tanto a Santo Antônio quando a Brasil Novo, o que, a meu ver, se aplica também a muitas outras "comunidades" amazônicas, "re-inventadas" ou transfiguradas pela ação de agentes pastorais católicos nos últimos anos, desde a segunda metade do século XX.

Ao lado disso vale lembrar, como está na nota 1, que o título original deste artigo enfatizava as "novas formas de cidadania" emergentes na Amazônia a partir da atuação dos agentes de pastoral da Igreja Católica, ao trabalharem, motivados pela Teologia da Libertação, na implantação de Comunidades de Base. Tal aspecto será enfatizado ao longo do texto, pois representa um ganho político para as populações locais influenciadas por essa ação, em reação interativa que, portanto, não se processou num único sentido, mas constituiu-se numa forma de reciprocidade. Assim, a ação e, sobretudo, as mensagens desses agentes eram reciprocadas também de forma crítica pelos sujeitos aos quais se destinava a ação. Isto será retomado na conclusão deste texto. Passo, a seguir, a tratar da formação dessas comunidades, dando destaque, inicialmente, para duas lideranças comunitárias femininas cuja atuação tornou-se fundamental.

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