O pensamento de Jacques Maritain e de Emmanuel Mounier no campo católico brasileiro e a educação libertadora de Paulo Freire

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  • Data de Criação 6 de março de 2020
  • Ultima Atualização 6 de março de 2020

O pensamento de Jacques Maritain e de Emmanuel Mounier no campo católico brasileiro e a educação libertadora de Paulo Freire

Muitos pensadores e militantes católicos brasileiros, após os abalos da Segunda Guerra Mundial, procuraram estar atentos ao pensamento católico francês e associar as suas estratégias de transformação social nos campos escolar, político, econômico, sindical e teológico e em outros espaços e campos de poder. Muitos foram até mesmo ao continente europeu e se enfronharam em experiências de trabalho, estudo, cooperação e vivências sociais. Foram pensadores, estudantes de teologia, políticos, sindicalistas, padres, professores e operários que, ao desembarcarem em França, Bélgica, Itália e Alemanha, consumiram, ressignificaram e possibilitaram a circulação de um pensamento e de uma prática social que serviu para constituir um novo paradigma de ação político-social no Brasil a partir dos processos de mudança político-econômica que ocorreram a partir de 1945.

Nesse sentido, a teoria de campo social proposta por Pierre Bourdieu diz bem para o que se quer discutir aqui. Os pensadores e militantes que pertenciam, especificamente, ao campo católico do período ou nele se inseriram buscaram fazer valer suas posições e obter espaço, reconhecimento e prestígio dentro do seu próprio campo de atuação e em outros campos de poder e de saber em disputa. Afinal, todo campo é um campo de forças em disputa para conservar ou transformar esse mesmo campo de forças, no qual se podem “engendrar as estratégias dos produtores, a forma de arte que defendem, as alianças que estabelecem, as escolas que fundam e isso por meio dos interesses específicos que aí são determinados” (Bourdieu, 2004, p. 22-23). Desse modo, pode-se dizer que aqueles pensadores e militantes católicos brasileiros que atuaram nos mais diversos campos sociais de luta disputaram posições, elaboraram propostas, circularam ideias e estabeleceram relações de poder. Paulo Freire (1921-1997) é exemplo eloquente desse engajamento católico militante no campo científico da educação, ao formular uma “pedagogia da ação” elaborada a partir da sua própria experiência de vida com a realidade precária da população empobrecida e das suas leituras ressignificadas da filosofia política de Jacques Maritain (1881-1973) e da filosofia da ação de Emmanuel Mounier (1905-1950).

Há, de fato, que se fazer um esforço constante buscando refletir sobre as relações entre o pensamento e a ação católica no Brasil e em França, sobre o papel das instituições para reduzir os conflitos sociais e sobre a insuficiência da ideia de crescimento econômico em relação à ideia de desenvolvimento humano aplicado a todas as dimensões dos sujeitos. O pós-1945 se apresenta como essa nova condição emergencial e expõe um contexto que deve ser analisado, segundo pressupostos da metodologia genealógica foucaultiana, a partir dos estados de forças que marcaram o aparecimento de paradigmas, discursos e práticas: “A história, genealogicamente dirigida, não tem por fim reencontrar as raízes de nossa identidade, mas ao contrário, se obstinar em dissipá-la; ela não pretende demarcar o território único de onde viemos, essa primeira pátria à qual os metafísicos prometem que nós retornaremos; ela pretende fazer aparecer todas as descontinuidades que nos atravessam” (Foucault, 1979, p. 34 e 35).

É preciso, portanto, construir uma genealogia do catolicismo social brasileiro do pós-1945 perspectivada como um movimento heterogêneo e por isso descontínuo, polissêmico, plural, de muitas matrizes com seus usos diferenciados, contraditados e dissipados e, ao mesmo tempo, atuante nos espaços públicos e institucionais, buscando traçar a influência e a interferência das múltiplas relações de poder e de força sobre a vida das pessoas. Na genealogia das relações de poder, Foucault também se preocupa em problematizar acerca das interinfluências e das relações de poder voltadas à produção do conhecimento e da verdade no campo das ciências e na institucionalização de práticas político-sociais: “Há um combate ‘pela verdade’ ou, ao menos, ‘em torno da verdade’ entendendo-se que não se trata de um combate ‘em favor’ da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha. É preciso pensar os problemas políticos dos intelectuais não em termos de ‘ciência/ideologia’, mas em termos de ‘verdade/poder’” (Foucault, 1979, p. 13).

Paulo Freire, inserido no campo em disputa das ciências da educação, atuará em direção à produção da verdade e de um conhecimento pedagógico referenciado nos paradigmas da economia humanista católica.

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