Margarida Genevois, vida dedicada à defesa dos direitos humanos

Do Sion à ditadura militar

Criada em colégio de freiras, Margarida Genevois foi aliada de d. Paulo Evaristo Arns no combate à repressão

Paulo Sampaio Colaboração para o UOL, em São Paulo Fernando Moraes/UOL

Margarida Bulhões Pedreira Genevois, 97 anos, está intrigada. Depois de dedicar a vida à defesa dos direitos humanos, de ter buscado uma conscientização política que sua criação elitizada não forneceu, de ter se envolvido com setores da sociedade distantes de sua origem abastada, de ter ajudado a salvar vítimas da ditadura militar, ela não entende a letargia do povo diante da situação crítica em que o Brasil se encontra:

“As pessoas se queixam de tudo, mas não propõem nada”, diz ela, na sala de jantar de seu apartamento, na região central de São Paulo. “Fico impressionada com a falta de iniciativa. A gente precisa mudar não só de ideia, mas de vida.”

Iniciativa é uma palavra muito importante para entender a história de Margarida. Nascida no Rio no começo do século XX, ela estudou nos colégios de freiras mais tradicionais da cidade, o Sacre-Coeur e o Sion, casou-se com um francês, teve quatro filhos e foi morar com a família em uma fazenda perto de Campinas (a 100 km de SP), adquirida pela empresa multinacional em que o marido trabalhava.

Se fosse cumprir apenas o que esperavam dela, teria resumido sua existência na criação das crianças, na dedicação ao marido e aos afazeres domésticos.

Mas muitas outras coisas passaram pela sua frente, e ela não pode deixar de ver…

 
 
Fernando Moraes/UOL

Vila operária

A fazenda de 2.500 alqueires era, quando a família desembarcou no lugar, um imenso matagal inóspito a ser transformado em usina de açúcar para a produção de álcool e produtos químicos. Acomodados em 400 casas, os operários da usina e suas famílias logo compuseram uma aldeia de cerca de dois mil habitantes.

As crianças ali cresciam ao Deus-dará. Mal alimentadas, sem atendimento médico nem acesso a escolas: “Olha a Benedita. Essa menininha era um trapinho de gente”, aponta Margarida, em um álbum de fotografias e recortes da época. “Depois que a parteira cortava o cordão umbilical das crianças, as mães colocavam esterco de vaca para cicatrizar.”

O contato com a miséria, a privação, a vulnerabilidade daquela gente fez aflorar em Margarida questões que, embora ela não usasse ainda essa nomenclatura, diziam respeito a “direitos humanos básicos”.

Como boa aluna do colégio Sion – que ela nunca deixou de ser —, Margarida buscou ajuda de mulheres católicas da sociedade de Campinas e, com o apoio do marido, construiu uma escola, erigiu uma igreja e estabeleceu visitas regulares de um médico à comunidade. Aos poucos, passou a organizar quermesses para angariar fundos, criou um clube para atividades recreativas e sociais e concursos para eleger, entre outros, o bebê mais robusto da vila.

Fernando Moraes/UOL
 

“Eu adoro gente”

Quando a família se mudou para São Paulo, depois de 20 anos no interior, os bons resultados de sua experiência na fazenda a precederam. Sempre muito sociável (“eu adoro gente”), Margarida se viu envolvida em um projeto de “expansão cultural” chamado Veritas, dedicado a mulheres que foram educadas em francês, “mas não sabiam conversar sobre política, sociologia, economia”.

“Naquela época, as mulheres de classe média-alta eram criadas para serem dondocas. Nosso objetivo era mudar a mentalidade delas, ampliar seus horizontes, apresentá-las a temas que diziam respeito à realidade do País.”

Graças ao trânsito que passou a ter entre expoentes da intelectualidade da época, Margarida e a outra fundadora do Veritas, Zita Bressane, conseguiram reunir palestrantes tão prestigiados quanto o economista Paul Singer, o advogado Fabio Konder Comparato, a escritora Lygia Fagundes Telles, a atriz Fernanda Montenegro, os jornalistas Antônio Calado e Newton Carlos, e muitos outros. “O Paul Singer me disse que hesitou antes de aceitar o convite par a falar para mulheres grã-finas”, ela conta, rindo. “Acabou se surpreendendo com o interesse delas.”

De acordo com Ana Maria Salles, 92, fundadora da livraria Duas Cidades (“de Deus e do homem”) e uma das maiores entusiastas do Véritas, “Margarida deu a várias gerações de mulheres a oportunidade de adquirir conhecimento com pessoas importantíssimas da época”. “Hoje, as mulheres têm acesso a todo tipo de informação, mas não foi sempre assim. Ela fez um trabalho excepcional “, diz Ana Maria.

 

Fernando Moraes/UOL 

Articuladora importantíssima

Cinco anos depois, em 1973, Margarida era a primeira mulher a integrar a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, criada pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns para denunciar a violação dos direitos humanos durante a ditadura militar. Foi três vezes presidente da comissão, cargo ocupado também pelos advogados Dalmo Dallari, José Carlos Dias e Marco Antônio Barbosa.

“A Margarida era uma articuladora importantíssima, convocava as reuniões na casa dela, fazia contato com os advogados dos presos políticos, contava com absoluto respeito e confiança de dom Paulo. Tanto que foi mil vezes homenageada pela turma da minha geração”, diz o urbanista Francisco Whitaker, que passou quinze anos exilado.

A jornalista Elza Lobo, 80 anos, presa e torturada no regime militar (“com direito a tudo de ruim que houvesse pela frente”), fala de Margarida como uma força muito relevante na luta contra a repressão. “Ela se envolvia nos projetos com dom Paulo, era muito atuante. Uma espécie de braço direito dele”, lembra. 

Fernando Moraes/UOL 

Direita nem esquerda

Apesar do compromisso irrestrito com a defesa das vítimas do regime militar, Margarida afirma que nunca esteve ideologicamente ligada a partidos políticos, nem tinha “lado” (esquerda ou direita). “Minha base sempre foi profundamente cristã. Acho que os que tiveram mais acesso à educação, à saúde, à informação tem obrigação de ajudar os desassistidos.”

Previsivelmente, em determinado momento a base religiosa dela esbarrou na ideologia política. No próprio Véritas, a grande maioria dos convidados eram progressistas. Margarida sorri: “Eu não ia levar para falar alguém que apoiasse a tortura. Quem defendia os direitos humanos era chamado de comunista, mas isso não me interessava. Eu queria que todos tivessem as mesmas oportunidades, não importava o nome que dessem a isso.”

Em pleno regime militar, as companhias de Margarida preocupavam a família: “Você ainda vai acabar sendo morta”, diziam. O marido receava que o trabalho dela o comprometesse, como estrangeiro vivendo no País. Mas apesar de ter inclusive dado abrigo para vítimas dos torturadores, ela conta que nunca sofreu ameaças – muito provavelmente pela providencial cobertura de dom Paulo.

No auge da atividade, ela “ia onde precisassem de mim”. Viajava não só para os grotões mais remotos do país, para prestar todo tipo de assistência em comunidades carentes, mas também para o exterior, atrás de recursos fornecidos por entidades parceiras. “A França e a Alemanha nos ajudaram muito financeiramente.”

No começo da década de 1980, Margarida participou da criação do Tribunal Tiradentes, que julga simbolicamente as ações dos parlamentares no Congresso Nacional. Na ocasião, o tribunal condenou a lei de Segurança Nacional (que foi promulgada em 1935 e define crimes contra a ordem política e social).

 

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Febem e Paulo Freire

Em 1989 Margarida se tornou assessora do presidente da Fundação Estadual do Bem-estar ao Menor (Febem, atual Fundação Casa) João Benedito de Azevedo Marques. “Ele me deu carta branca para lidar com as crianças. Convoquei mulheres da classe média que tinham tempo para trabalhar como voluntárias. O professor Paulo Freire (1921-1997) nos apoiou muito, ajudou no que pode.”

Margarida lamenta profundamente a tentativa do atual governo de desqualificar Freire, considerado um dos educadores mais importantes do mundo. Apologista da chamada “pedagogia crítica”, ele fez a defesa de uma liberdade que permite ao aluno desenvolver suas próprias ideias, em contraponto a uma educação tecnicista, previamente estabelecida. De caráter dialético, a proposta dá instrumentos para que esse aluno faça a conexão entre o que está aprendendo e a realidade, saiba reconhecer tendências autoritárias e conquiste habilidade para tomar atitudes construtivas – tudo que Margarida Genevois sempre valorizou.

Ela permanece uma figura respeitadíssima nos círculos de militantes históricos dos direitos humanos. Mas a voz suave, na defesa firme de seus pontos de vista, mostra que ela não endureceu, nem perdeu o aplomb. Tem horror ao “palavreado baixo do presidente da República” e a declarações como “a ditadura nunca existiu”: “A gente não merecia isso. O nível é muito ruim. Uma tristeza. “

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Reportagem: Paulo Sampaio; Edição: Marina Bessa; Fotos: Fernando Moraes; Edição de fotografia: Lucas Lima.

 

fonte: https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/margarida-genevois/index.htm

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