Mensagem dos Movimentos Populares no Seminário Nacional da 6ª Semana Social Brasileira

Mensagem dos Movimentos Populares no Seminário Nacional da 6ª Semana Social
O Brasil Que Queremos
O Bem Viver dos Povos

Kelli Mafort da Coordenação Nacional do MST


A confrontação que se estabelece na atualidade se dá entre as necessidades humanas por um lado, e os interesses privados do capital por outro. Essa é uma atualização da histórica luta de classes entre as forças antagônicas do capital e trabalho, convertidas na confrontação entre vida e morte. Por isso, organizar e colocar em movimento os que querem viver, é missão prioritária dos movimentos populares.

Desde os anos de 70 do século passado, estamos vivenciando uma crise profunda no sistema capitalista, decorrente de uma combinação de fatores que tem na predominância da financeirização para a acumulação capitalista, em detrimento de formas anteriores mais vantajosas, uma de suas principais causas.

O neoliberalismo surgido há mais de 50 anos, é expressão dessa crise profunda no sistema do capital, e seu modelo privatizante, entreguista e devastador de direitos, foi se generalizando no mundo e impondo novos desafios para as classes trabalhadoras.

As mudanças ocorridas nestes mais de 50 anos, tem no Estado, o principal garantidor de que as riquezas produzidas pelos trabalhadores e trabalhadoras, sejam transferidas aos que menos precisam, os mais ricos. Cada vez mais vemos o Estado ampliar seu caráter empresarial e repressivo, mobilizando suas forças armadas e militares, contra seu próprio povo, violentando e autorizando a violência que atinge principalmente o povo negro, as mulheres e os sujeitos de diversidade sexual.

Mas uma crise estrutural no sistema do capital, jamais será uma crise terminal por si. Se as forças vivas da sociedade que sofrem os impactos deste nefasto modelo não se mobilizarem, a transformação não ocorre. Precisamos ter a coragem e a ousadia de nos organizar e nos colocar no movimento real da história.

Precisamos nos reinventar para organizar a massa sobrante gerada por um sistema em crise, que precariza o trabalho em todas as esferas e faz com que uma parte de nós deixe de existir, e possa morrer de vírus, fome ou de bala. Não somos massa, queremos ser povo e força política transformadora!

Em busca de repor as perdas impostas pela queda tendencial na taxa de lucro, os capitalistas seguem um impulso de valorização e mercantilização, movidos por uma incontrolabilidade apropriadora e destrutiva. Com isso, vão destruindo as condições metabólicas da vida humana na Terra. Por mais que nos esforcemos, não seremos capazes de destruir o planeta, mas certamente estamos dando largos e acelerados passos na destruição das condições que permitem a existência na vida humana na casa comum. O colapso climático não é algo distante para “as futuras gerações”; ele está presente desde já, nos extremos de temperaturas, nas enchentes constantes, na aridez que avança, nas nuvens tóxicas de poeiras e no surgimento de muitas doenças infecciosas de efeito pandêmico de contaminação.

A crise é global e atinge nossos irmãos e irmãs em todas as partes, mas certamente não estamos todos no mesmo barco. As consequências dessa crise afetam em cheio a vida dos povos no sul global, valendo-se de economias dependentes e subservientes aos interesses imperialistas como o Brasil.

Por aqui, são muitas as demonstrações de uma sociedade doente e em crise. Temos 20 milhões passando fome enquanto o agronegócio controla a exportação de alimentos para 180 países, somente em 2021. Somos o 3º maior produtor de alimentos do mundo e mais da metade do povo está em insegurança alimentar. Afirmamos que o agronegócio produz a fome! Sabemos que o agronegócio não produz comida, e sim commodities para exportação, e que 70% da produção de alimentos vem da agricultura familiar e camponesa, no entanto, o agronegócio controla a indústria de alimentos e o comércio. Especula e se vale da desvalorização cambial para exportar a comida para fora, receber em dólar e deixar para o povo brasileiro uma inflação absurda que já está na média de 14,66% sobre os alimentos. A elevada conta de energia, também tem a marca do agronegócio, pois, com o aumento do desmatamento, cada vez mais temos usado energia de fonte termoelétrica. O avanço da soja sobre biomas importantes como o do cerrado, comprometem a necessária reciclagem das águas, somente possível pelo poder vigoroso das raízes profundas de uma floresta em cima, e debaixo do solo. A destruição do cerrado compromete 8 das 12 bacias hidrográficas, essenciais para o abastecimento de água no país.

Precisamos cada vez mais nos preocupar com a privatização e a especulação das águas, desde dezembro do ano passado, a água é negociada na bolsa de valores de Nova York de mercados futuros.

A alta no preço do gás de cozinha e do preço dos combustíveis, revela o quanto estamos de cabeça baixa aos ditames do capital. Nenhum país do mundo que tem petróleo, como o Brasil, fica refém de uma política de preços internacional. É urgente retomar nossa soberania.

As mazelas que envolvem a falta de terra, teto e trabalho, nos colocam numa realidade desesperadora. Está muito difícil viver, e além da carestia, temos que enfrentar um adoecimento em massa, com explosão de casos de depressão, ansiedade e a dor profunda do suicídio. É preciso socorrer nosso povo no seu desespero do estômago e do espírito.

A pandemia nos trouxe a tristeza pela perda de mais de 600 mil pessoas, sendo que a maior parte delas, poderia estar entre nós. Não tiveram vacina, oxigênio, leito ou sucumbiram diante das nefastas promessas de tratamento precoce. Não pudemos salvá-las, mas temos que fazer da partida, memória ativa e isso deve nos mover permanentemente.

Ao que tudo indica estamos saindo desta pandemia, por conta dos cuidados sanitários, da existência do SUS e do avanço da imunização coletiva através das vacinas. Vitória!!! Apesar dos horrores expostos pela CPI que trouxe os graves crimes comuns, de responsabilidade e contra a humanidade, sobrevivemos! Mas é preciso nos atentar que a solução às pandemias não pode ser somente medicamentosa e vacinal, pois é da natureza deste modelo do capital em crise, gerar muitas pandemias no rastro do desequilibro da relação ser humano-natureza. Nós somos natureza, não estamos fora e nem acima dela. Somos organicamente ligados a floresta, aos solos, as águas, as plantas, aos ventos e aos animais.

Na crise ressurgem formas políticas mais recrudescedoras, de direita, de extrema direita ou de populismo de direita, mobilizando uma agenda que é igualmente ultraliberal e fundamentalista. Alguns negligenciam o fundamentalismo como força real do projeto que ameaça nossas frágeis democracias no sul global, ao fazê-lo, nos deixam sem instrumental para compreender o caráter da disputa que estamos expostos. Basta olhar para nossos irmãos e irmãs na Bolívia e mais recentemente no Equador, que sofre agora com a decretação do estado de exceção, para ver o quanto o fundamentalismo atua em defesa de um projeto de morte, disputando nossas espiritualidades, crenças e religiões.

A antropóloga Isabela Kalil nos alerta que, no Brasil, essas forças, apesar de serem a minoria na sociedade, vieram para se estabelecer, muito para além do político de plantão à frente do executivo no momento. Isso deve nos preocupar, mas jamais, nos imobilizar! A propagação do medo é método na cartilha dos extremistas da morte.

Da República Tcheca sopram bons ventos, nos trazendo lições sobre como derrotar um autocrata. Recentemente, as forças populares e democráticas daquele país, derrotaram um bilionário, xenófobo e anti-ambientalista. E o que fizeram? Essas lições foram sistematizadas pelo professor Oliver Stuenkel da Fundação Getúlio Vargas, são elas: 1. Agir rápido, pois o segundo mandato tende a ser mais devastador que o primeiro; 2. Fazer uma oposição unida em torno de um único objetivo (evitar dispersões e pontos de divergência); 3. Politizar a disputa eleitoral, mais do que nomes, debater projetos com a sociedade. Fazer da eleição um grande referendo popular de balanço crítico sobre o governo atual; 4. Perdoar o passado, não rivalizar em quem votou na morte; 5. Fomentar a solidariedade internacional dos povos, trocar experiências de análise e resistência (isso não está sendo enfrentado só em um país pois se trata de um método aplicado em diferentes realidades).

Essa experiência mostra que é possível mudar! Mais do que isso, as crises são portadoras de janelas históricas que precisam ser abertas pelos povos, para que possamos construir desde já, a sociedade que queremos.

As bases de um projeto popular para o Brasil e a projeção do Brasil que queremos com o Bem Viver dos Povos, passa por alguns pilares fundamentais:

  • Vida boa para todos e todas.
  • Defesa intransigente dos Bens Naturais.
  • Buscar uma sociedade igualitária. Articular com a dimensão trazida pelo Papa Francisco de Renda Básica
    Universal.
  • Lutar por um Estado com efetiva participação popular nas relações de poder.
  • Soberania nacional e popular.
  • Cultivar e viver valores. Ter coerência. Viver o compromisso de irmã Dorothy, Marielle Franco, Frei Tito e
    tantos mártires.
  • Valorizar o estudo com o forma de sistematização da luta de um povo, mas também como produção teórica
    coletiva, nos reencontrando com autoras e autores que ajudam a pensar a formação social brasileira.
  • Fazer político! Articulando trabalho de base, formação política e lutas, que é a única forma de mudar a
    vida.

    Que os versos de Zé Vicente nos embalem e convoquem, sempre! São anúncios proféticos do mundo que podemos e devemos construir: “ Haveremos de ver esse dia da grande vitória, o povo nas ruas fazendo história, crianças sorrindo em toda nação”.

    Outubro de 2021

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