O direito de queimar estátuas

“Por favor, da próxima vez façam uma nota de repúdio”

Imagem: Grupo de Ação
 

Por VLADIMIR SAFATLE*

Resposta ao artigo de Leonardo Avritzer

Foi com espanto que recebi o artigo de Leonardo Avritzer [“Bastilha e Borba Gato”] a respeito de meu texto em defesa da ação contra a estátua de Borba Gato, feita pelo coletivo Revolução Periférica. Digo “espanto” porque creio ser significativo um artigo que, diante de arbitrariedades flagrantes cometidas contra lideranças populares envolvidas na ação, julga melhor se colocar na posição de quem questiona “se a utilização da violência como método é a linguagem correta da disputa política”.

Assim, Avritzer achou por bem escrever um artigo no qual nenhuma menção à prisão arbitrária de um entregador de aplicativos e sua mulher é feita, nenhuma expressão de solidariedade e indignação é mostrada. Antes, há apenas um julgamento, em larga medida caricato, a respeito da recusa abstrata à “violência como método”. Creio que isso diz muito.

Poderíamos começar por perguntar: qual violência é objeto de crítica de seu artigo? A violência do Estado brasileiro ao prender manifestantes que atearam fogo em volta de uma estátua que celebra a violência escravagista e colonial? A violência de ter que conviver com uma estátua que representa um bandeirante armado, ou seja, armado contra ameríndios e pretos escravizados? A violência de ver celebrado um caçador de homens e mulheres? Não. O que lhe assusta é o “método” utilizado por quem ateia fogo em um símbolo de violência armada que ocupa o espaço público.

Afinal, talvez fosse mais adequado uma petição, uma nota de repúdio, ou algo cuja eficácia, no Brasil e no mundo, sempre se demonstrou nula. No entanto, seria o fato de começar por lembrar que isso que Avritzer chama de “violência” contra uma estátua que celebra a história colonial e racista brasileira foi a única ação capaz de abrir uma discussão real a respeito de política de memória imposta a nós pelo poder oligárquico paulista. Abertura essa que manifestantes pagaram com sua prisão e perseguição. A ação foi estrategicamente bem-sucedida, conseguiu o que se propôs e não conseguiria isso se agisse de outro modo.

Nesse sentido, é sugestivo que nos últimos meses vimos estátuas serem derrubadas no Chile, na Colômbia, nos EUA, na Inglaterra por motivos semelhantes e, em nenhum desses casos, vimos representantes do campo progressista se julgarem no direito de dar lições aos populares a respeito de “se aquela era a linguagem correta da disputa política”. Quando ameríndios colombianos derrubaram a estátua de Sebastián de Belalcázar em uma ação muito mais “violenta” do que essa feita contra a estátua de Borba Gato, nenhum cientista político do campo progressista resolveu utilizar citações de Judith Butler e Hannah Arendt para deslegitimar ações políticas dessa natureza. Fenômenos estranhos como esse só ocorrem no Brasil. Da mesma forma, ninguém envolvido nessas ações foi preso, a não ser no Brasil. Talvez haja uma relação entre os dois fatos.

Para mim, é sintomático que, ao citar um trecho de meu artigo onde digo que: “destruir tais estátuas, renomear rodovias, parar de celebrar figuras históricas que representam apenas a violência brutal da colonização contra ameríndios e pretos escravizados é o primeiro gesto de construção de um país que não aceitará mais ser espaço gerido por um Estado predador” Avritzer ache por bem falar de sua recusa à “forma violência”, forma essa que seria expressão da “não política”.

Mas se nos perguntarmos sobre, afinal, o que é concretamente a “forma violência” que lhe incomoda, veremos que não é outra que simplesmente “destruir estátuas, renomear rodovias e parar de celebrar figuras históricas coloniais” pois essa era a única da qual era questão em meu artigo.

Isso é só expressão de um problema elementar de teoria política. Pois Avritzer prefere agir como se não soubesse que a democracia admite sim situações de dissociação entre justiça e direito instituído. A história das lutas sociais por ampliação de direitos foi feita por ações que, do ponto de vista do direito instituído, eram compreendidas como “violentas” e “criminosas”. Operárias e operários nos anos vinte apelaram ao crime de fazer greve para lutar por direitos que nunca seriam conquistados sem “violência”, já que greve era então uma ação criminosa. Situação essa que só se modificou devido a força da mobilização popular.

Só para ficar em um exemplo recente, em 6 de janeiro de 2014, os trabalhadores e trabalhadoras da filial francesa da indústria Goodyear sequestraram o diretor de produção e o diretor de recursos humanos durante mais de um dia, como prática de imposição de negociação. Ou seja, eles os prenderam na própria fábrica até a que fossem ouvidos. A lógica, que se demonstrou eficaz, lembrava que essa era uma forma politicamente legítima, e historicamente bastante utilizada, de atuar contra um poder que tudo fará para ignorar as demandas populares. Essa dramatização da urgência da injustiça não é, em absoluto, “não política”, e não foi por acaso que ninguém foi preso ou julgado por ela.

Por fim, só gostaria de insistir em duas inadequações nas afirmações de Avritzer. Não creio em absoluto que Judith Butler compreenda uma ação de violência simbólica contra uma estátua colonial, sem nenhuma possibilidade de dano contra pessoas, feita em um lugar onde não há transeunte algum, como uma forma não-política de violência. Nem ações desse escopo estão em seu horizonte de defesa da não-violência. Ou seja, o apoio teórico que Avritzer procura é simplesmente incorreto.

Por outro lado, ele termina seu texto lembrando da pretensa “incapacidade de as revoluções baseadas na violência construírem formas democráticas depois do fim dos antigos regimes”. Esse é um topos clássico do pensamento conservador. No entanto, isso pressupõe acreditar que a independência norte-americana (só para ficar em um exemplo caro a Arendt) tenha sido feita com flores ou como se processos de libertação nacional tenham sido frutos de um acordo de cavalheiros.

Podemos ainda perguntar se Avritzer acha que a realidade produzida pela Revolução Haitiana era “menos democrática” do que o antigo regime escravista e assassino. Ou seja, o diagnóstico é falho, além de pressupor erradamente que os descaminhos dos processos revolucionários sejam produzidos, necessariamente, pelo uso da violência contra a ordem anterior. Como se não bastasse, podemos sempre questionar se conhecemos até agora alguma forma política efetivamente democrática ou se seria mais correto criticar as estruturas autoritárias naturalizadas nos dispositivos legais de nossas democracias liberais antes de criticar processos revolucionários com suas dificuldades imanentes.

De toda forma, não poderia deixar de terminar sem lembrar que as colocações de Hannah Arendt sobre processos revolucionários são, a meu ver, historicamente equivocadas e indefensáveis, e muito me admira que ela seja usada de forma tão desproblematizada no contexto brasileiro. Apenas para ficar em um ponto, segundo Arendt, o problema com a Revolução Francesa era que: “A piedade, tomada como fonte da virtude, mostrou que possuía uma capacidade para a crueldade maior do que a própria crueldade: “Par pitié, par amour pour l’humanité, soyez inhumain”: essas palavras, colhidas quase ao acaso numa petição de uma das seções da Comuna de Paris à Convenção Nacional, não são gratuitas nem exageradas; são a autêntica linguagem da piedade (…) Desde os tempos da Revolução Francesa, foi por causa deste caráter ilimitado dos sentimentos dos revolucionários que eles se tornaram tão curiosamente insensíveis à realidade em geral e à realidade das pessoas em particular, que eles não tinham nenhum escrúpulo a sacrificar a seus ‘princípios’, ao curso da história ou à causa da revolução enquanto tal (…) Em termos políticos, pode-se dizer que o mal da virtude de Robespierre consistia em não aceitar nenhum limite” (ARENDT, Hannah; Sobre a revolução, p. 128).

Sua crítica é clara na denúncia dos efeitos pretensamente nefastos do desejo pretensamente abstrato de transformação social. O amor pelo que pode ser terminaria sempre por matar o que é. Pois um processo político que ignora a irredutibilidade dos indivíduos e seus sistemas particulares de interesses só poderia terminar na insensibilidade aniquiladora em relação ao existente.

No entanto, seria interessante começar por se perguntar o que “insensibilidade à realidade das pessoas em particular” pode, de fato, significar nesse contexto. Pois talvez não fosse vão lembrar como o diagnóstico de “insensibilidade” muda dependendo da perspectiva que ocupamos. Pois por que falar em “insensibilidade” se apenas os jacobinos eram sensíveis à escravidão, pois foram eles que a aboliram? Por que continuar falando em insensibilidade se só os jacobinos eram sensíveis à indigência, já que foram eles que registraram os indigentes fornecendo a todos uma renda vinda da confiscação dos bens dos “traidores da pátria”? Apenas eles organizaram cuidados médicos para os pobres à domicílio.

Poderíamos continuar de forma extensiva esses exemplos a fim de problematizar o que deveríamos, de fato, entender por “insensibilidade à realidade das pessoas” nesse debate. Poderíamos mesmo desconfiar que o verdadeiro desconforto talvez venha do fato da violência revolucionária estar, ao menos nesse caso, dirigida preferencialmente à nobreza, ao clero e à aristocracia, e não aos alvos tradicionais dos poderes de sempre. Pois essa violência não é simples destruição, nem violência estatal tendo em vista a preservação do Estado. Ela é ação direta da soberania popular contra dinâmicas de restauração da ordem anterior. Problemático ou não, consequente ou não, é nesse horizonte que o problema deveria ser colocado. Só que Avritzer prefere discutir se, da próxima fez, não seria melhor fazermos uma nota de repúdio.

*Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos – Lacan, política e emancipação (Autêntica).

fonte: https://aterraeredonda.com.br/por-favor-da-proxima-vez-facam-uma-nota-de-repudio/

 


 

A liberação do passado

 

Por VLADIMIR SAFATLE*

Considerações sobre o direito inalienável de derrubar estátuas

“Quem controla o passado, controla o futuro”. Essa frase de 1984, de George Orwell, é uma das mais importantes lições a respeito do que é efetivamente uma ação política. Toda ação política real conhece a importância de compreender o passado como um campo de batalhas. Ela compreende que o passado é algo que nunca passa por completo. A definição mais correta seria: o passado não é o que passa. O passado é o que se repete, o que se transfigura de múltiplas formas, o que retorna de maneira reiterada. O passado é o que faz CEOs falarem, em 2021, como senhores de escravos do século XIX, que faz transgêneros atualmente em luta falarem como pessoas escravizadas em luta séculos passados.

Nosso tempo é espesso. Nas camadas dessa espessura convivem mortos e vivos, espectros, limiares e carne. Só mesmo uma noção pontilhista e equivocada de instante pode reduzir o presente ao “agora”. O “agora” é apenas uma forma, politicamente interessada, de bloqueio do presente. Pois quem luta pela liberação do passado, luta pela modificação do horizonte de possibilidades do presente e do futuro.

Seria útil lembrar disso no Brasil, ou seja, nesse país que se especializou em procurar não falar de seu passado devido a uma certa crença mágica de que, se não falarmos dele, o passado irá embora e nunca mais voltará. Os apóstolos do esquecimento deveriam lembrar que foi assim que criamos o país da compulsão contínua de repetição. País que se acostumou a ver militares agindo como se estivessem em 1964, no qual uma política catastrófica de anistia permitiu que as Forças Armadas preservassem seus responsáveis por crimes contra a humanidade até que eles voltassem a ameaçar a sociedade. O esquecimento é uma forma de governo. A tentativa de exilar os sujeitos no presente puro é o seu braço armado mais forte. Deveríamos partir daí se quiséssemos efetivamente entender o que é o Brasil.

Dito isto, não é motivo de espanto ver alguns a criticarem uma das mais importantes ações políticas desses últimos meses, a saber, a queima da estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo. Quem acha que isso é apenas um ato “simbólico” deveria pensar melhor a respeito do que compreende por símbolo e como são eles que, muitas vezes, impulsionam as lutas mais decisivas e as transformações mais impressionantes. Quando caiu, a Bastilha não era mais que um símbolo. Mas foi a queda do símbolo, foi um ato simbólico por excelência, que abriu toda uma época histórica. A modificação na estrutura simbólica é modificação nas condições de possibilidade de toda uma era histórica. Aqueles que fazem profissão de fé de “realismo político”, de “materialismo”, talvez estejam a esconder certo receio de que estruturas simbólicas fundamentais desçam as ruas e sejam queimadas.

Pois uma estátua não é apenas um documento histórico. Ela é sobretudo um dispositivo de celebração. Como celebração, ela naturaliza dinâmicas sociais, ela diz: “assim foi e assim deveria ter sido”. Um bandeirante com um trabuco na mão e olhar para frente é a celebração do “desbravamento” de “nossas matas”. Desbravamento esse que não é abertura de nada, mas simples apagamento de violências reais e simbólicas que não terminaram até hoje. Pois poderíamos começar por se perguntar: contra quem essa arma está apontada? Contra um “invasor estrangeiro”? Contra um tirano que procurava impor seu jugo ao povo? Ou contra aquelas populações que foram submetidas à escravidão, ao extermínio e ao roubo?

Um bandeirante era um caçador de homens e mulheres, ou seja, a encarnação mais brutal de uma forma de poder soberano ligado à proteção de alguns e à predação de muitos. Um bandeirante é, acima de tudo, um predador. Celebrá-lo é afirmar um “desenvolvimento” que, necessariamente, realiza-se em um país composto por uma nata de rentistas encastelados em condomínios fechados e uma grande massa que ainda hoje é caçada, que desaparece sem rasto nem traço.

Destruir tais estátuas, renomear rodovias, parar de celebrar figuras históricas que representam apenas a violência brutal da colonização contra ameríndios e pretos escravizados é o primeiro gesto de construção de um país que não aceitará mais ser espaço gerido por um Estado predador que, quando não tem o trabuco na mão, tem o caveirão na favela, tem o incêndio na floresta, tem a milícia. Enquanto estas estátuas estiverem sendo celebradas, enquanto nossas ruas tiverem esses nomes, esse país nunca existirá.

Quem faz o papel de carpideira de estátua acaba se tornando cúmplice dessa perpetuação. Só sua derrubada interrompe esse tempo. Essa ação é, acima de tudo, uma autodefesa. Quando a ditadura militar criou o mais vil aparato de crimes contra a humanidade, dispositivo de tortura de Estado e assassinato financiado com dinheiro do empresariado paulista, não por acaso seu nome foi: Operação Bandeirante. Sim, a história é implacável.

Como disse no início, o passado é o que não cessa de retornar. Borba Gato estava lá, nas câmaras de tortura do DOI-Codi, encarnado, por exemplo, em Henning Albert Boilesen: empresário dinamarquês presidente da Ultragaz e fundador do CIEE, que se deleitava em inventar máquinas de torturas (a pianola Boilesen) e assistir a torturas e assassinatos. Por isso, quando as estátuas começarem a cair, é porque estamos no caminho certo.

*Vladimir Safatle é professor titular de filosofia na USP. Autor, entre outros livros, de Maneiras de transformar mundos – Lacan, política e emancipação (Autêntica).

fonte: https://aterraeredonda.com.br/a-liberacao-do-passado/

 


Entre o fogo na estátua e soltar uma nota: a ressignificação do espaço público

Imagem: Matthias Cooper
 

Por LEONARDO AVRITZER*

Continuação do debate com Vladimir Safatle

Escrevi o artigo “Da Bastilha à Borba Gato: os equívocos da ação política violenta”, uma crítica a texto de Vladimir Safatle publicado em A Terra é Redonda no qual ele defende o ato de colocar fogo na estátua de Borba Gato. Confesso que fiquei decepcionado com a falta de elementos conceituais na resposta de Safatle.

Afinal de contas, estamos completando quase 100 anos que a teoria crítica discute o tema, abordado pela primeira vez por Walter Benjamin em seu ensaio “Crítica à violência”. Nos últimos anos diversos autores no campo da teoria crítica publicaram reflexões importantes sobre o tema. Étienne Balibar publicou Violence and civility, onde ele rediscute a relação entre marxismo e violência; Richard Bernstein publicou Violence, no qual Fanon, Arendt e Benjamin são rediscutidos e, no ano passado, Judith Butler publicou The force of nonviolence, onde ela propõe uma ética da não violência no processo de reparação de injustiças históricas.

A resposta de Safatle envolve basicamente três questões: primeiro ele questiona sobre porque meu artigo não mencionou a prisão das lideranças populares envolvidas na ação, certamente um ato de injustiça do estado brasileiro que deve merecer o nosso repúdio, mas que não modifica a questão colocada pelo meu artigo. A pergunta que fiz, e que Safatle não conseguiu responder, é se a lógica da violência que vem de um estado excludente e violento deve determinar a lógica de ação dos movimentos sociais.

Em segundo lugar, Vladimir pergunta-se o que pretendia criticar no meu artigo: “A violência do Estado brasileiro ao prender manifestantes que atearam fogo em volta de uma estátua que celebra a violência escravagista e colonial? A violência de ter que conviver com uma estátua que representa um bandeirante armado, ou seja, armado contra ameríndios e pretos escravizados? A violência de ver celebrado um caçador de homens e mulheres? Não. O que lhe assusta é o “método” utilizado por quem ateia fogo em um símbolo de violência armada que ocupa o espaço público”. Ou seja, Safatle continua um fiel seguidor da tradição daqueles que acham que qualquer luta contra a opressão do estado utilizando qualquer método é legitima e que a esquerda e as forças progressistas não devem perder tempo discutindo aquilo que vem depois da destruição e que eu chamo de ressignificação.

Em terceiro lugar, Safatle coloca corretamente a questão de que “a democracia admite sim situações de dissociação entre justiça e direito instituído. A história das lutas sociais por ampliação de direitos foi feita por ações que, do ponto de vista do direito instituído, eram compreendidas como “violentas” e “criminosas”. Operárias e operários nos anos vinte apelaram ao crime de fazer greve para lutar por direitos que nunca seriam conquistados sem “violência”, já que greve era então uma ação criminosa”.

Ainda que eu tenha exatamente a mesma posição de Safatle de que a democracia permite sim situações de dissociação entre a justiça e o direito instituído, me impressiona a incapacidade do autor para realizar distinções e de não entender o que está em jogo nas diferentes situações. Walter Benjamin já apontava a legitimidade das ações da classe trabalhadora por direitos, mas ele deixava claro no seu texto que a legitimidade das ações da classe trabalhadora estava ligada a uma dinâmica de não violência.

Benjamin considera a greve uma omissão de ação e a legitima a partir dessa interpretação. Ele diz: “É verdade que a omissão de uma ação e inclusive de um serviço, que equivale a uma “ruptura de relaciones”, pode ser um meio totalmente puro e livre de violência. Segundo essa concepção do estado (ou do direito), com o direito de greve se concede às associações de trabalhadores não tanto um direito à violência senão um direito de subtrair-se à violência…” (Walter Benjamin, De la crítica a la violencia, p. 19, Buenos Aires, 1995). Impressiona que 100 anos depois desse artigo, o soreliano da Universidade de São Paulo ainda não tenha entendido esse ponto. Existe um caminho relativamente curto entre Benjamin e Butler que a própria autora reconhece e que Safatle se recusa a levar a sério.

Porém, os maiores equívocos de Safatle estão ligados à sua concepção sobre como a democracia institui novos direitos. Contrasto dois exemplos recentes de processos de ressignificação política: o caso Borba Gato que estamos discutindo e o caso da estátua do general Baquedano, no Chile (vide foto abaixo) que foi ressignificado a partir do momento em que os chilenos a escalaram e colocaram no seu topo a bandeira Mapuche. A instituição do novo não se dá a partir da colocação do fogo, uma forma destrutiva de ação e sim da utilização da linguagem da política.

No caso do Chile temos três momentos de ressignificação e de instituição do novo: em primeiro lugar, a colocação da bandeira Mapuche no topo da estátua do general que liderou a guerra com o Peru e a Bolívia no século XIX; em segundo lugar, a retirada, pelo governo chileno, da estátua do general Baquedano, uma vez que ela se tornou uma disputa de significados na qual o governo foi derrotado. É evidente que a derrota do governo Piñera e daqueles que defendiam o status quo colonial foi muito mais contundente quando o próprio governo decidiu retirar a estátua do general. Por último, uma indígena Mapuche foi eleita presidente da Assembleia Constituinte no Chile.

É assim que eu entendo o conceito de ressignificação e de instituição do novo: através de disputas concretas sobre o significado de práticas políticas. Tenho minhas dúvidas sobre se colocar fogo na estátua do general Baquedano teria levado a indígena Mapuche, Elisa Loncón, à presidência da constituinte.

A construção do novo exige não apenas um trabalho de destruição, mas também um trabalho de construção cujas características fazem parte de um debate em aberto. Uma parte central dos autores e autoras que fazem parte de uma tradição crítica e progressista estão abrindo essa discussão. Vladimir Safatle parece julgar que rotulá-los de conservadores é suficiente para participar do debate de maneira desinformada e não reflexiva.

*Leonardo Avritzer é professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG. Autor, entre outros livros, de Impasses da democracia no Brasil (Civilização Brasileira).

fonte: https://aterraeredonda.com.br/entre-o-fogo-na-estatua-e-soltar-uma-nota-a-ressignificacao-do-espaco-publico/


 

Carpideiras de estátuas: que violência política?

Imagem: C. Cagnin
 

Por JULIAN RODRIGUES*

Considerações sobre o debate Vladimir Safatle x Leonardo Avritzer

Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kömmt drauf an, sie zu verändern” (Karl Marx).

Difícil fugir da polêmica. É correto que movimentos sociais toquem fogos em estátuas e monumentos que homenageiam gente escrota? Paulo Galo e seu grupo ajudaram a avançar no debate sobre esse tema ou erraram feio?

Antes de inocular meu palpite no meio da rica controvérsia Vladimir Safatle versus Leonardo Avritzer, travada em postagens no site A Terra é Redonda,[1] introduzo, modestamente, alguns parâmetros interpretativos.

Paulo Lima, o Galo, que assumiu a responsabilidade pela ação segue preso. O desembargador paulista ao julgar o caso manteve a prisão sustentando que ele é líder do movimento dos entregadores de aplicativos. Foi uma ação taticamente perfeita? Oportuna? Foi executada corretamente? Do ponto de vista teórico-programático ou político imediato foi um gol do campo progressista?

Em outro cenário, seria cabível esse debate. Galo não seria mais relevante  para luta de classes organizando os entregadores? Por que queimar a estátua  logo no dia do ato nacional “fora Bolsonaro”?  Por que não divulgar um manifesto explicando a ação? E por aí vai.

Entretanto, sorry. Um pouco menos. Não é aceitável entrar na pilha de que a iniciativa do grupo de  Galo foi “violenta”. Que não cabe em uma “teoria política democrática”. É reacionarismo demais, Leonardo Avritzer.

A começar pela estigmatização da violência como método de luta político-social legítima. Ora, “os equívocos da ação política violenta” começam pelos regimes “democráticos” Como assim?

O Brasil não é um país organizado a partir da violência dos de cima contra os de baixo, desde sempre? Não vivemos sob um golpe continuado? O bolsonarismo não é a exacerbação não só da violência do Estado mas das milícias, do crime, do ódio do “cidadão de bem”?

Ao ler os argumentos do professor da UFMG, contra o que ele chama de “política violenta”, qualquer pessoa pode  começar a crer também em Papai Noel ou no Coelhinho da Páscoa. Parece que o Brasil é uma terra onde reina a racionalidade e os bons princípios democráticos. Nosso país – e  todo o mundo inteiro –  é pacífico.  Tudo  gente fina, elegante e sincera.

Lendo Avritzer, achei que eu vivia na Suécia, Noruega, Canadá – ou em Cuba (sim, em Cuba). Muita harmonia social, quase nenhuma violência. Eu, que sempre lia com interesse os artigos do intelectual da UFMG, fiquei com centenas de pulgas atrás das orelhinhas.

Então a gente vai resolver os problemas do Brasil só sei lá como, votando?  Rezando pelo nosso belo sistema de pesos e contra-pesos, nossa sólida institucionalidade? Torcendo ou fazendo mandinga , para que nunca mais a burguesia dê um golpe como o de dezesseis?

Caramba: temos um dos países mais desiguais e violentos da periferia do capitalismo. A herança escravocrata marca e define cada detalhe do tecido social brasileiro. Somos a nação que mais assassina  e   encarcera  pretos, pobres, mulheres, jovens, LGBT.

Ao desancar Vladimir Safatle, ostentado como ideia chave “os equívocos da ação política violenta”, Leonardo abre, de cara, uma avenida de questionamentos. Já que ele foi pelo clichê do pacifismo e do bom funcionamento das “democracias”, vou também por outra linha canônica, que tal Brecht “do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

De que violência o senhor está tratando, afinal, professor Leonardo?  Por que invocar dona Arendt (tão amiguinha do establishment estadunidense, ao ponto de ser apontada como amiga remunerada da CIA)? Ou trazer Butler – filósofa eclética e vanguardista, para respaldar suas posições recuadas-ingênuas-liberais?

Não há teoria política que justifique esse repúdio apriorístico a ações diretas organizadas pelos de baixo. Veja, não mataram nenhum burguês. São quase 560 mil mortos por Covid. Antes disso, eram 60 mil homicídios anuais. Considere, professor Avritzer: os rebeldes da “Revolução Periférica” não atentaram contra nenhuma propriedade particular, nem contra vida nenhuma!

Quem o lê nunca  esperaria que o senhor ratificasse  ideias como as daquele um  outro Vladimir (“a única garantia de democracia é o fuzil ao ombro do trabalhador.”). A gente sabe, ciência política não é algo para xiitas, marxistoides, ou gente tosca. Mas, não precisa exagerar, não é mesmo?

Claro que meu parti pris é antiquado: não há ciência neutra, nem ingênua, nem sem lado. Ver Leonardo Avritzer se doer tanto e gritar “contra violência”, tudo por conta daquela feia estátua de bandeirante paulista incinerada, foi meio decepcionante demais. E haja hegemonia liberal. E segue o barco.

*Julian Rodrigues é professor e jornalista, ativista LGBTI e de Direitos Humanos

Nota


[1] Eis a lista dos artigos, em ordem cronológica:

Vladimir Safatle, “A liberação do passado”: https://aterraeredonda.com.br/a-liberacao-do-passado/]

Leonardo Avritzer, “Bastilha e Borba Gato”: https://aterraeredonda.com.br/bastilha-e-borba-gato/

Vladimir Safatle, “Por favor, da próxima vez façam uma nota de repúdio”: https://aterraeredonda.com.br/por-favor-da-proxima-vez-facam-uma-nota-de-repudio/

Leonardo Avritzer, “Entre o fogo na estátua e soltar uma nota: a ressignificação do espaço público”: https://aterraeredonda.com.br/entre-o-fogo-na-estatua-e-soltar-uma-nota-a-ressignificacao-do-espaco-publico/

 fonte: https://aterraeredonda.com.br/carpideiras-de-estatuas-que-violencia-politica/

 

 

 

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