Pastor das periferias e dos descartados. Entrevista com Dom Mauro Morelli

Aos 86 anos, Dom Mauro Morelli não poupa adjetivos, ironias ou fino humor quando indagado sobre as mazelas do país – fomepolíticaambiente. “Estamos nos tornando seres indesejáveis. O seio da mãe terra que é lugar de vida está se transformando nas entranhas geradoras de morte”, alerta no recente documentário A Bolsa ou a Vida, de Silvio Tendler. Bispo auxiliar do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns na Arquidiocese de São Paulo, entre 1975 e 1981, Morelli não se restringiu à sacristia, conforme “sugeriu” certa vez o sisudo general Médici a lideranças da igreja. Preferiu abraçar a luta para “dignificar a vida” daqueles a quem chama de “irmãos”, as comunidades, as periferias e o “mundo dos descartados”.

Formado em Filosofia e Teologia, está escrevendo um livro de memórias para a editora Loyola. “É uma tarefa nada fácil porque João Paulo II vai ocupar bom espaço nessas memórias inquietas de um pastor de periferia”, adianta ele, que foi o primeiro bispo da Diocese de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Com o sociólogo Herbert de Souza, o BetinhoMorelli fundou o Movimento pela Ética na Política, lançou a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida e foi o primeiro presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea)extinto por Jair Bolsonaro. Nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe, o religioso, que pediu renúncia do governo de sua Diocese em 2005 para se dedicar integralmente à causa do direito humano ao alimento e à nutrição, afirma que a civilização chegou ao limite.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 16-12-2021.

Eis a entrevista. 

No recém-lançado documentário de Silvio Tendler, A Bolsa ou a Vida, o senhor afirma: “A nossa civilização, para mim, se esgotou”. É um desabafo pessimista de quem foi bispo auxiliar de Dom Paulo Evaristo Arns que tinha como lema “De esperança em esperança”?

Na verdade, a esperança é você caminhar no escuro, na certeza de que vai haver um amanhecer. Ainda que seja de tranco em tranco. Dom Paulo sabia disso. Então eu sou um homem de esperança, não de fantasia, de ilusão. Acho que é importante que a gente dê passos novos e, nessa altura da minha vida, aos 86 anos, eu estou começando uma nova jornada, dentro da mesma trilha de comunhão, de solidariedade, de fraternidade e justiça social.

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A que fantasia e ilusão o senhor se refere?

Eu voto até hoje, mas não tenho fantasias, nem ilusão em termos de política. A minha visão é esta: as mudanças só virão – sempre vieram – lá de baixo, das comunidades, das periferias e do mundo dos descartados. Eu sou testemunha disso. Durante a ditadura, antes que a classe média acreditasse no que estava acontecendo – só acordaram depois que mataram o (Vladimir) Herzog, lá na periferia tinha tanta gente que já vivia numa garra imensa, sonhando, buscando e marcando presença na esperança do amanhecer do novo.

Então, o senhor tem esperanças, mas é, digamos, um pouco cético?

Eu digo o seguinte: Brasília não deve ser ignorada, mas não coloquemos esperança em Brasília. Nem ao centro, nem à direita, nem à esquerda. Obviamente que há uma diferença impressionante entre Lula e Bolsonaro, mas o pobre do Lula governou enquadrado direitinho no esquema do Estado brasileiro.

Que esquema?

A resposta segue com umas perguntas. Você vai numa igreja católica, por exemplo, e na hora da prece dos fiéis se diz assim: ‘Para que haja justiça no mundo do trabalho, rezemos ao senhor’; e todo mundo responde ‘Senhor, escutai a nossa prece’. Aí eu pergunto: alguém ali participa do seu sindicato? Não. Participa da Pastoral Operária? Não. Então, por que estão rezando?

Faltam participação e mobilização popular?

Sim. Mas eu confesso que eu não participei da campanha das Diretas Já. Eu ficava na minha casa, cruzando os dedos.

Por quê?

As Diretas Já, o que que foram? Quando fizeram assim plim, plim, cavalgaram sobre o movimento popular, puseram o cabresto, levaram para a eleição indireta e, depois, tudo para um Congresso Constituinte. A coisinha mais linda, mais fofa, mais safada e mais cínica que eu já vi.

Mas a Constituição que saiu em 1988 é considerada avançada, não?

Tudo bem, a Constituição trouxe coisas novas, mas uma Constituição, meu irmão, é feita de princípios constitucionais. Alguns pétreos, muito bem. Mas, esses princípios, para se tornar verdade e vida, têm que se converter em leis ordinárias e as leis ordinárias precisam ser regulamentadas. Sem isso, não passam de belos princípios constitucionais. Só. E já mudaram muito a nossa Constituição. Assim, com essa visão, o Estado brasileiro para mim não é o Estado dos povos do Brasil. Ele sempre pertenceu a uma família imperial, no início, e os que lhes davam suporte e, depois, às famílias imperiais que cresceram após aquele desfilezinho do Marechal Deodoro no Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 1889.

Vamos voltar à Constituição de 1988…

Uma Constituição é um pacto entre as diferenças de um povo para eliminar, combater e extirpar as desigualdades individuais e regionais. É um pacto social. Nós, a partir dos porões da periferia, também buscávamos um pacto social novo. Mas nós nunca tivemos um pacto social das diferenças no Brasil.

Quais diferenças?

A primeira diferença é entre homem e mulher; outra diferença, trabalhador e patrão; outra diferença, latifundiários e agricultores familiares, o pequeno agricultor; outra diferença é o idoso e o jovem; outra diferença é o banqueiro e o bancário. Assim nós vamos. Na formulação da Constituição de 1988, entre 530 congressistas, talvez umas 30 mulheres. Na maioria, os senhores homens, os barões do comércio, da terra, do mundo empresarial. Enfim, latifundiários, banqueiros e grandes empresários. Os iguais não fazem pacto social.

O que fazem?

Os iguais, nesse caso, fazem concessão. A Constituição de 1988 tem muita concessão porque nós nos movimentamos. Houve um esforço muito grande dos movimentos populares. Se não houvesse, nem essas concessões teriam. A ordem econômica que nós vivemos no Brasil é o pior capitalismo que existe no mundo. Então, enquanto, por exemplo, outros países capitalistas fizeram reforma agrária, o Brasil nunca fez. Nem o Lula fez quando era presidente. Reforma agrária é um projeto capitalista, mas aqui nós temos – ai meu Jesus! – o que há de mais atrasado, de pior qualidade em termos de capitalismo e de elites capitalistas. Terrível, mesquinho, doloroso, vergonhoso, iníquo e perverso.

Diabólico?

Benditas as diferenças e malditas as desigualdades. Às vezes, eu acho que até o demônio tem vergonha e foge dessa gente. O demônio é muito mais inteligente, é um bom teólogo (risos). É muito mais habilidoso. É muita grosseria, é muita estupidez, muita insensatez, muita agressão à ciência.

Na sua experiência de militante contra a fome, como o senhor avalia o tratamento dado à questão alimentar na Constituição?

Na minha compreensão, na Constituição onde é explicitamente reconhecido que a alimentação é um direito humano básico, deveria estar alimentação e nutrição. Porque nem todo alimento nutre, nem todo o alimento é saudável. O alimento não pode levar à enfermidade e morte. O direito humano à alimentação e à nutrição é um direito humano básico, que tem o meio ambiente como determinante. O objetivo, falando de crianças, é ter uma criança saudável, inteligente, participativa e de bem com a vida. Se estiver desnutrida, os seus neurônios não se desenvolvem bem, ela vai ficar mirrada.

Quando o senhor fala em crise civilizatória, está considerando também a destruição do meio ambiente?

Analisando o mundo como eu vejo, acompanhando uma série de estudos, eu cheguei à conclusão de que, de fato, o que nós vivemos hoje não é uma crise apenas climática. É uma crise civilizatória. A nossa civilização se esgotou. É sabido e comprovado que, para nos aturar, a natureza geme e se contorce. Não está aguentando e dá sinais cada vez mais fortes de que nós nos tornamos habitantes indesejáveis.

Por que indesejáveis?

Se fala de domesticar animais; eu acho que quem precisa ser domesticado – domus é casa em latim – a viver nesta casa somos nós, os humanos. Nós estamos tirando da terra, em um ano, aquilo que seria necessário um planeta e meio para dar conta. Tudo isso é fruto da nossa cobiça, nosso desperdício, nosso acúmulo. Ou aprendemos a viver, admitimos que somos terra e entramos na solidariedade, na comunhão com tudo e com todos, ou nós seremos cuspidos fora. Eliminados.

Na encíclica Laudato Si, o Papa Francisco fala de ecologia integral. O que é?

Que bela contribuição nos dá o Papa Francisco. No seu ensinamento, no seu testemunho. Que simbiose maravilhosa essa de um jesuíta franciscano (risos). A Laudato Si nos leva a refletir que tudo está conectado nesta casa comum, aliás, no Universo – que é um mistério de comunhão e nós cremos na comunhão. A ecologia integral dá a dimensão de você sentir a natureza. Ela fala de várias formas, se expressa de formas maravilhosas. Ela canta, ela assobia, ela nos regurgita para longe (risos), ela dança, ela vibra. Assim a gente vai descobrindo a natureza na sua grandeza, na sua biodiversidade. Mas a ecologia integral tem uma dimensão também cultural. São as relações que os seres humanos vão desenvolvendo a partir do chão que é pisado, do clima, da vegetação, do bioma.

Por exemplo?

Serra da Canastra, por exemplo. Você só pode produzir queijo da Canastra na Canastra. São 200 anos de várias gerações se relacionando com a terra, com o clima, com aquele capim especial. Que maravilha a dimensão cultural apontada no número 145 da Laudato Si! A extinção de uma cultura é tão ou mais grave que a extinção de uma espécie e, hoje, no Brasil, as culturas estão muito ameaçadas.

Em termos de Brasil, o que está em jogo nesse contexto?

questão cultural é que está em jogo no Brasil. É essa agressão violenta que destrói não só a natureza, mas aqueles que sabem trabalhar na natureza. Os pescadores artesanais, as mulheres que colhem sementes, os quilombolas e, acima de tudo, os povos nativos originários. Que coisa triste, vergonhosa e criminosa a extinção cultural que é, como disse antes, tão ou mais grave do que a extinção de uma espécie.

A solução para esse problema passa por onde?

Uma nova ordem, não só no Brasil. O Papa Francisco sugere que se busque e convoca, agora, um grupo de pessoas, jovens principalmente, para os caminhos de uma nova economia. Uma economia que não demanda porcarias; uma economia que não seja dona de coisa alguma. Economia, oikonomos quer dizer norma da casa. Qual é a norma desta casa? É comunhão, é solidariedade, é justiça, é fraternidade. Não essa coisa vil que está aí. Vergonhosa, asquerosa e corrupta; deprimente e perversa. Vamos em frente.

E como ir em frente?

Uma das dimensões fundamentais é a política. O que que é a política? É a construção do bem comum. Pai e mãe têm o trabalho político de construir o bem comum em sua casa. Todos nós temos que estar envolvidos na construção do bem comum. É importante que haja políticas públicas que garantam medidas necessárias que devem ser tomadas para garantir um direito negado ou periclitante. Por exemplo, uma pessoa desempregada deveria ter uma política pública que garanta a sua alimentação e da sua família. Esse é um desafio permanente. Que você tenha uma ordem econômica que permita às pessoas ter condições de viver bem, ter uma vida digna.

E o que é uma vida digna para o senhor?

Para mim, uma vida digna é uma vida pobre. A vida pobre, para mim, é uma casa que tem salubridade, que tem privacidade – tem o quarto do casal, tem o quarto das meninas, tem o quarto dos meninos – tem mesa de jantar, não falta comida, tem acesso à educação. Nada se acumula, nada sobra, nada se desperdiça. Uma vida frugal.

O senhor fala de sustentabilidade?

Esse é o caminho que uma nova humanidade precisa descobrir. O mundo não aguenta mais o lixo que nós estamos gerando. Também não é justo continuar produzindo alimento para converter em moeda.

De certa forma, há uma interligação aí, não?

Entendo que, enquanto o alimento for produzido para ser convertido em moeda, haverá degradação ambientalmiséria e fome na terra. Eu não tenho nenhuma devoção pelo agronegócio. O agronegócio tem por objetivo transformar comida em moeda. Você vai na Bacia do Paraná. A natureza lá oferecia mais de 150 frutos maravilhosos. Hoje tem três ou quatro; o resto, soja. Acabam com tudo.

Estamos colhendo as consequências desse modo de produção?

Assim, essa crise ambiental ainda vai se agravar muito mais. A riqueza da natureza também dá uma harmonia, um equilíbrio. Quando você reduz tudo a uma monocultura, você precisa adotar meios para impedir os insetos e outras pragas. Aí nós descambamos para todos os tipos de agrotóxicos. Enfim, é o que nós estamos vendo hoje no nosso país. A alternativa seria o apoio real e efetivo para a agricultura familiar que é a que, de fato, produz mais comida. A característica da agricultura familiar já vem do nome. É a família que produz para comer e que disponibiliza na sua região aquilo que ela produz um pouco a mais. É o escambo, é a troca. Isso é legítimo e importante.

Mas a situação da agricultura familiar não anda muito bem.

Segmento, aliás reconhecido por lei federal editada na época do Lula, para ter a primazia de abastecer a rede pública de ensino. Nós estamos com uma condição cada dia pior para a produção de alimentos. Pela crise climática e pela incompetência e má-fé do governo, que, diga-se de passagem, está criando dificuldades para a produção da agricultura familiar. Que Deus nos liberte desse caminho.

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fonte: https://www.ihu.unisinos.br/615443-pastor-das-periferias-e-dos-descartados-entrevista-com-dom-mauro-morelli

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